UM OLHAR PARA O FUTURO DAS FERROVIAS BRASILEIRAS

Francisco Augusto Oliveira - ONGTREM

 

A trajetória da RFFSA revela um grande conjunto de acertos e erros, problemas políticos influenciando deleteriamente a administração das ferrovias, e uma grande experiência acumulada de engenharia, operação e manutenção de ferrovias. Boa parte desta experiência se transferiu para as operadoras privadas, que concentraram quase toda a sua operação no transporte de carga.

Há muito a ser feito e muito a ser investido para trazer as ferrovias brasileiras para o padrão do primeiro mundo.

Entretanto já existe uma infraestrutura de vias permanentes e estações ferroviárias, que com investimentos relativamente baixos pode ser modernizada e proporcionar uma operação eficiente e competitiva, tanto para carga como para passageiros.

É fundamental que o estado assuma seu papel, como investidor na infraestrutura ferróviária, muito além do que tem feito nos últimos anos, de ser mero repassador de concessões e material rodante para a operação pela iniciativa privada, que como bem sabemos, só se interessa pelo lucro. Cabe a união, aos estados, e até mesmo aos municípios bancar e realizar investimentos em trechos ferroviários e no transporte de passageiros que não interessem à iniciativa privada, mas que apresentem grandes benefícios sociais, como o transporte dos trens de subúrbio, as ligações por trem norte-sul, e as ligações entre as principais cidades dentro das regiões sul, sudeste e nordeste.

Estratégicamente é importante que haja uma alternativa eficiente ao transporte rodoviário por ônibus, caro, cartelizado e oligopolizado, e ao transporte aéreo, hoje com sérios problemas de infraestrutura aero-portuária, e que irá requerer altíssimos investimentos para fazer face à demanda crescente. Porque não direcionar parte destes investimentos para o transporte ferroviário de passageiros entre as principais capitais?

É necessário dispor de fundos públicos para investimento em infraestrutura ferroviária, muito além dos recursos disponíveis no BNDES, que são direcionados à iniciativa privada sobre a forma de empréstimo de longo prazo. São necessários investimentos públicos, a fundo perdido, em estações, retificações de trechos sinuosos, e de elevado greide: estes investimentos permitirão à iniciativa privada, operadora das redes ferroviárias operar a custos mais baixos, trazendo um círculo virtuoso de competitividade no transporte de mercadorias e pessoas, integrando regiões, interiorizando a produção, reduzindo a importação de óleo diesel e as emissões de gases de efeito estuda. Mais importante, a ferrovia é o modo de transporte terrestre mais seguro, haverá então significativa redução de gastos com o tratamento de acidentados.

Onde investir, qual a escala de prioridades?

Devem ser priorizados os investimentos para conclusão de obras inacabadas, como os metrôs metropolitanos de Belo Horizonte, Salvador e Brasília, depois devem ser realizados investimentos em projetos ferroviários com maior beneficio para a população e maiores reflexos econômicos.

Existem diversos trechos desativados correndo risco de roubo de trilhos e dormentes, e até mesmo da venda do leito da ferrovia para loteamento particular. Este é o caso do ramal Águas Claros, ligando duas regiões populosas de Belo Horizonte até o município de Ibiritè. Neste ramal, investimentos relativamente baixos poderiam criar um trem urbano com ótimo carregamento. Se nada for feito os trilhos deste ramal vão virar sucata em pouco tempo, e o seu leito vai ser transformado em rodovia.

A ferrovia do aço, que começa muito próximo de Belo Horizonte e termina em Barra Mansa, RJ, tem quase tudo para operar eficientemente com passageiros: um excelente traçado, raios de curva de alta velocidade e grade adequado. Faltam: alguns quilometros de prolongamento da via permanente até a estação de metrô mais próxima em Belo Horizonte, alguns desvios, locomotivas rápidas e vagões para passageiros, e a instalação de algumas estações de passageiros, em cidades como São João Del Rei e Barra Mansa.

Nesta cidade poderá ser feita conexão com o futuro trem-bala Rio-São Paulo. São necessários estudos de viabilidade econômica, que devem avaliar também o transporte de carga containerizada, mas o interesse de estrageiros na ferrovia Rio-São Paulo indica que o investimento é viável.